"As aventuras da toupeira"

Hoje fui com três colegas de turma, meu grupo de trabalho da faculdade, assistir a um desenho animado do diretor tcheco Zdenek Miller sobre a toupeirinha aí ao lado. É muito lindo! O filme é uma compilação de 7 curtas sobre uma toupeira muito curiosa, que inventa de tudo: andar de carro, pintar um bosque, fazer um disco com notas musicais e aguar belas flores no jardim onde vive.

O primeiro filme foi lançado em 1963 e a animação é bastante rudimentar e antiga, mas as histórias são divertidas, de bom humor, inteligentes e, acima de tudo, não-violentas. Foi um banho de diversão e de bons sentimentos, onde o mais importante não é você se dar bem, mas sim a integração dos personagens (leia-se pessoas), persistência, paciência e amizade. É uma lição em como fazer um desenho com a mesma técnica usada pelos desenhos japoneses atuais, porém sem violência. E digo mais, as crianças que estavam presentes no cinema adoraram! Ouvimos várias fazendo comentários, se adiantando aos fatos e prevendo o que deveria acontecer, e tudo de um modo divertido e interessado.

Então, fica a pergunta eterna de todos os pais do mundo: por que fazer desenhos animados tão violentos se algo divertido, inocente e tão reconhecível para as crianças é tão ou mais fácil de realizar? Ou será que é mesmo mais fácil? Pois encontrar histórias que sejam condizentes com a realidade infantil não é assim tão fácil. A violência é mais direta, traz resultados imediatos. Porém, o que as pessoas não se dão conta, é que a resposta direta e imediata que a violência traz é tão perseverante e permanente quanto o sentir-se bem de uma touperinha curiosa, que nos faz pensar em nossos jovens anos e do quanto gostaríamos que nossos filhos compartilhassem das mesmas coisas.

O tempo não volta atrás, mas não custa tentar aproveitar o que foi feito de bom.

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Demônios

Cá estou eu novamente, tentando relançar-me no mundo virtual. Fico querendo escrever coisas com sentido, ter tempo pra sentar e botar fotos e pensamentos no ar, mas fica difícil se o tempo em si é muito reduzido e a vida vai rolando cada vez mais rápido. E às vezes me “esqueço” deste espaço, não quero pensar nele, não quero ter de pensar nos próprios demônios e analisar as próprias ações. Mas tudo tem limite! Meus demônios não irão embora só porque não penso neles. Pelo contrário, só se tornarão mais ativos e sérios, construirão casas e apartamentos, diques imensos à volta de mim. E isso não quero mais. Não quero me trancar dentro de mim mesma de novo, não quero ser prisioneira dos meus pensamentos. E mais importante: não quero viver alimentando minhas tristezas com comida e tornando-me ainda mais triste. Preciso, sim, trabalhar as tristezas e transformá-las em algo construtivo e belo.

Felizmente isto está funcionando. Ainda não consegui resolver a questão da comida, mas estou caminhando nessa direção. Mas estou finalmente num ponto ascendente, onde a faculdade está começando a dar certo de verdade e eu estou conseguindo juntar as duas pontas da minha vida numa coisa só.

Há algumas semanas comecei a perceber que minha vida estava tomando um novo rumo. Talvez tenha sido a decisão sábia de procurar um outro grupo de trabalho, de ser capaz de me virar para pessoas de quem gosto mas que não fazem nada e dizer que preciso procurar o meu próprio caminho, de conseguir enxergar e aceitar que a questão profissional e a pessoal são duas coisas que devem ser mantidas à parte (muito raramente é possível juntar as duas). Provavelmente ver-me diante de um problema pessoal fez-me perceber que tenho de manter minha vida pessoal afastada da profissional, por mais difícil que seja.

Não posso desmerecer a ajuda constante e incondicional do meu marido, que sempre me apóia e me ajuda no que pode, mesmo que isso seja difícil pra ele (como às vezes é, óbvio!). Se não fosse por ele, acho que já teria jogado a toalha há muito tempo e desistido de tudo. Houve momentos em que quis mesmo jogar tudo pro alto e simplesmente aproveitar a vida, não me esforçar para aprender essa língua danada que é o holandês, mandar todos os holandeses passear. Mas não, eu resisti, insisti e venci. E estou vendo agora os resultados num novo grupo de trabalho, com pessoas interessantes e interessadas, que se esforçam, que estão dispostas a ouvir o que tenho a dizer.

Estou também mais consciente do esforço que foi para mim me adaptar a esta vida holandesa, e de como foi difícil combinar uma cultura anglo-saxã com o meu sangue quente brasileiro. E olha que nem sou das mais exaltadas! Nos últimos dias tenho me dado conta do quanto botei minha vida pré-Holanda um pouco de lado para poder mergulhar neste mundo estranho e estrangeiro, e de como isso transformou o meu modo de ser e de ver o mundo. Dei-me conta por justamente perceber que essas informações, essa pessoa que eu era antes de ter de me adaptar, estar tudo voltando à tona de um modo curiosamente intenso e rápido. De repente me dei conta novamente de tudo pelo que já passei, aqui e lá, parei para repensar idéias e gostos, para reavaliar o que a vida tem diante de mim.

Acho que tudo está ligado à digestão e à compreensão dos problemas, à percepção do que nos move e do que nos pode mover. E do que queremos de nós mesmos e do mundo que nos cerca.

Eu por mim quero que minha filha seja feliz, quero ser feliz, quero fazer meu marido feliz, acho que nesta ordem. Pois, agora, minha filha certamente vem primeiro. Mas também tenho a clareza de saber que, sem ser feliz, não posso ajudar ninguém a sê-lo.